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Em resposta ao manifesto “Muito além da Risperidona”, o Ministério da Saúde enviou ao Movimento Psicanálise, Autismo e Saúde Pública (MPASP) a carta a (...)

Muito além da Risperidona
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Doenças e agravos associados ao estilo de vida
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Ecologia Humana - Muito além do jardim
publicado em 10 de Junho de 2008

Revista Eco Spy - edição maio/junho de 2005
Por Mirtes Leal e Sylvio Cardoso

Todos nós, até as crianças, estamos familiarizados com as expressões “poluição”, “camada de ozônio”, “reciclagem de lixo” e inúmeras outras que fazem parte hoje da preocupação com o meio ambiente, com a ecologia – termo derivado do grego oikos, que significa casa ou lar. Assim, ecologia é o estudo da relação entre os organismos vivos e o meio ambiente. Por tudo isso, nunca o homem se interessou tanto pela saúde do planeta Terra. No mínimo, por um motivo óbvio: ele não tem outra “casa” para morar, e precisa preservá-la, para si e para seus filhos. A perspectiva de que se esgotem os recursos naturais como os conhecemos hoje ou de que o ar possa tornar-se irrespirável, o calor insuportável, é angustiante. Os motivos dessa realidade também são óbvios e accessíveis até às crianças: nosso planeta foi e está sendo dilapidado por interesses econômicos de pequenos grupos numa tal escalada que o desfecho da história é a mesma do conto infantil em que o ganancioso matou a galinha dos ovos de ouro para apossar-se de um só golpe de todas as riquezas.
Só que não é apenas a perspectiva do que pode acontecer com o planeta que angustia o homem moderno, principalmente o das grandes cidades. Seu cotidiano é assombrado também por outros males: a violência, o desamparo, a não-adaptação – estados que são objeto de estudo da ecologia com foco no homem. Para conversar sobre isso, procuramos o Dr. Moisés Rodrigues da Silva Júnior, psicanalista, membro do departamento de psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae e diretor de Projetos Terapêuticos, dedicado à constituição de programas de (re)construção de vidas – atividade que tem o objetivo de ajudar as pessoas a descobrir suas chances de uma vida mais autônoma e integrada socialmente. Ele parte da premissa de que o sujeito se constrói intrincado numa rede de relações pessoais, sociais, ideológicas e institucionais.

Eco Spy – Moisés, o que é mesmo ecologia humana?
Moisés – A ecologia humana inclui três dimensões básicas: a dimensão física (o limite mínimo físico de salubridade e máximo de conforto), o registro das relações sociais (a necessidade de respeito a cada indivíduo humano, evitando um cinismo estatístico, e a concepção de bem de cada cultura) assim como a dimensão da subjetividade humana. É, portanto, uma definição aberta e que deverá ser especificada para cada grupo cultural por meio do embate político, social e cultural, incluindo-se nessa questão não só as relações de força visíveis como também os domínios da sensibilidade, da inteligência e do desejo. Não haverá verdadeira resposta à crise ecológica a não ser em nível mundial e através de uma autêntica revolução que reoriente a produção de bens tanto materiais quanto imateriais. Não haverá resposta ecológica para nosso país a não ser que nos livremos das tutelas econômicas que nos pauperizam em todos os âmbitos. Nossa população hoje está entregue a um destino de desemprego, marginalidade, doença e loucura. O desafio posto ao leitor desta entrevista é o de implicar-se na re-invenção do meio ambiente humano.
Temos a necessidade e o dever de ao longo da nossa passagem por este planeta, de nos colocarmos de forma ativa, junto aos outros homens, em relação à produção da vida nos contextos históricos atuais. Ecologia humana tem o foco na articulação entre a subjetividade que reclama expressão num mundo em aceleradas mudanças, em um meio ambiente que necessariamente há de ser reinventado. Os indivíduos devem se tornar simultaneamente cada vez mais solidários e cada vez mais diferentes.

ES – É nas cidades grandes que se desenvolvem os conceitos de ecologia humana?
Moisés – Durante gerações procurou-se entender as sociedades independentes de seu meio físico, partindo do pressuposto de que as causas dos fatos sociais só devem ser buscadas em outros fatos sociais. O Novo Paradigma Ecológico em sua leitura sociológica, traz a indicação que as sociedades só podem ser entendidas na sua inter-relação com o meio biofísico.
Podemos pensar as cidades como incansáveis “máquinas de crescer” com um conseqüente impacto ambiental, incluído aí o homem. Claro que não é só nas grandes cidades que se apresenta a questão da ecologia humana, mas é nelas que vamos encontrar imensos desafios que nos dizem diretamente respeito. Nas grandes cidades, sendo cada um apenas um elemento serial da grande massa, perdeu-se a noção de dimensão humana, destruindo-se a capacidade de reconhecer como co-participante de nosso destino a pessoa que caminha a nosso lado. Um palco privilegiado para observarmos essa questão é o trânsito, quando as pessoas obstinadas pela crença de que nada deve atrapalhá-las em seu caminho, enfurecem-se frente a qualquer obstáculo que se interponha em seu caminho, seja a lentidão do transito, um outro motorista ou mesmo um pedestre que não deveria atravessar a rota pré-determinada.

ES – O que fazer diante dessa realidade?
Moisés – Em primeiríssimo lugar, recuperar o espaço público como espaço relacional e interdependente, uma síntese de elementos naturais, sociais e culturais. Ato contínuo, restabelecer as relações amistosas e de solidariedade, promovendo um investimento afetivo e pragmático em grupos humanos de todos os tamanhos. As pessoas precisam encontrar-se, assim como também reconhecer-se e, juntas, apropriar-se do que é seu, do seu território, participando da transformação do espaço “estranho” em espaço próprio. Milton Santos, com propriedade, amplia o sentido de territorialidade como sinônimo de pertencer àquilo que nos pertence, realçando que a territorialidade humana pressupõe também a preocupação com o destino e a construção do futuro.
Pequenas ações locais, fruto do encontro comprometido das pessoas com projetos próprios são muito mais eficientes do que se pensa. Outro dia presenciei, bem aqui em frente, numa escola pública, os alunos, munidos de esfregão e balde, lavando o muro pichado, as quadras, zelando e qualificando o espaço que é deles, numa atitude dificilmente encontrável de satisfação e entusiasmo – tratavam o espaço como deles! Espaço onde se desenvolveriam as atividades de final de semana: campeonato de futebol, maracatu, pagode, um lugar de encontro, cheio de possibilidades para se desfrutar. Me lembrei da música antiga: “ ...a praça é do povo como o céu é do avião, um samba novo...” É isso, precisamos de um samba novo...

EC – Nas escolas é mais fácil, mas no dia-a-dia do local de moradia...

Moisés – No nosso bairro [Vila Madalena] temos uma experiência em andamento de re-ocupação dos espaços públicos, das praças. Os moradores se reúnem para discutir como querem que a praça seja, que equipamentos de lazer deve conter, que espaços de estar devem ser desenvolvidos. O relacionamento dessas pessoas se dá tendo como base as coisas que interessam à comunidade, do espaço que é público. As pessoas se aproximam, conversam, recuperam uma qualidade perdida de gastar tempo juntas, jogar conversa fora e também encaminhar questões como a coleta do lixo, a segurança do bairro, as relações com a Prefeitura e o sub-prefeito, atividades culturais. Essa prática é poderosa: ela junta as pessoas, tira-as de seu isolamento, desperta a consciência de não estarem sós, de pertencer a uma coletividade, despertando um verdadeiro sentido do social e da solidariedade.

EC – Mas aí as pessoas não estarão desempenhando um papel que deveria caber ao poder público?
Moisés – A ecologia humana deve trabalhar na reconstrução das relações humanas em todos os níveis de nossa sociedade. Vivemos tempos de um amplo domínio social, que se caracteriza por uma ampla deshumanização das populações urbanas. Temos que encarar a questão da ecologia na vida cotidiana individual, doméstica, familiar, conjugal, de vizinhança, buscando condições para a produção de uma vida que tenha sentido para as pessoas. Devemos buscar a produção de novas formas que tragam consigo a força de nos alegrar, recuperando e valorizando a diferença, num mundo que nos leva a negar a nossa própria diversidade. Penso que as diferenças deveriam romper a camisa-de-força da cultura, da religião. Há uma urgência em buscar a aproximação, o reconhecimento do outro, criando possibilidades de diálogo, hibridação, sincretismo, de que o Brasil deu tão belos exemplos quando transformou em Iansã uma santa da Ásia Menor, deu o nome de Pomba Gira a uma espanhola da Idade Média.
Então, a partir da assunção a um patamar de identidade, de desejos e projetos próprios, lutar por ações diferenciadas do poder público, para o nosso bairro, a nossa região. Há ações concretas para a preservação do meio ambiente cultural que não são feitas porque sempre se espera o comando que vem de cima, do governo. Sabemos de tantas coisas e em tantas poderíamos e deveríamos intervir que só podemos entender que as pessoas despossuidas do prazer de construir suas vidas, marcham para os fornos do extermínio do desejo e do prazer. Negamos ativamente nossos potenciais criativos na construção do dia-a-dia.

EC – É verdade, sempre ficamos à espera de um milagre, do governo, da chuva...

Moisés - É preciso recuperar o sentido do pequeno trabalho como criação, como fruto de transformação da natureza. É preciso cuidar de nosso território, fazendo a nossa parte e exigindo mais do poder público. Vivemos sob o império da catástrofe e da impossibilidade de fazermos algo para mudar a situação de miséria existencial em que vivemos. Temos fome e não é só de pão! Desqualificamos pequenas ações coletivas cotidianas. Se num quarteirão alguém desratizar a casa, os ratos vão para as outras residências. Não seria mais racional, eficiente e econômico os vizinhos se reunirem e pagarem uma desratização coletiva? Como fazer isso, como se organizar para isso? As pessoas têm que se descobrir, se aproximar umas das outras e tentar resolver juntas os problemas que são coletivos. Atualmente fala-se muito em tolerância, mas não se trata apenas de tolerar o outro, mas de criar com ele um vínculo de solidariedade, de reconhecer que com o outro se constrói o próprio destino de vida.

EC – Mas o senhor reconhece que essa não é uma atitude fácil?
Moisés – Reconheço, claro. Estamos falando de uma verdadeira revolução. Em minha prática clínica, como diretor de uma instituição que trabalha com a construção de projetos de vida para pessoas que passaram por graves crises pessoais, me deparo cotidianamente com a insensibilidade social frente ao sofrimento determinado pela diferença, fonte de discriminação e estigma. As pessoas - o conjunto social - tratam o diferente, com uma brutal crueldade. Quando se inclui o diferente, é no geral das vezes de forma caricata, caricatura de nós mesmos e de nossa realidade social.


EC – Como o cidadão pode participar da construção do espaço público?

Moisés – O espaço público se constitui a partir da história local e das atividades sociais e culturais desenvolvidas pelos cidadãos locais. As comunidades, organizadas de múltiplas formas, têm que chamar a atenção dos responsáveis políticos, técnicos do ordenamento do território, promotores do desenvolvimento e autoridades que defendem o patrimônio cultural, para as necessidades efetivas vividas por elas. Não podemos, não devemos mais aceitar as deliberações prontas, tecnocráticas, vindas de gabinetes governamentais sem nenhuma conexão com as realidades e culturas locais! É de fundamental importância na constituição de uma ecologia humana responsável, a valorização da cultura local, orientadora princeps para qualquer projeto de intervenção em uma comunidade. E aqui não defendo uma forma cultural presa ao passado e que desconhece os movimentos permanentes de modificação que as culturas locais sofrem até as suas formas contemporâneas. Temos que participar do nascimento e criação de tudo. Afinal, os bens públicos são nossos e não dos governos, que são transitórios, realizados por meio de alianças com um capital a maior parte do tempo não interessado no humano e nos seus destinos. A participação consciente e criativa, tem de ser o grande motor social, implicando o desenvolvimento da tecnologia aplicada ao avanço e benefício do homem em sociedade, senão, para que serve tudo isso? Todos somos potencialmente ativos. A plena humanidade é participativa e solidária.
Podemos assim definir a ecologia humana como um complexo de preocupações e ações que permitam a sobrevivência por tempo indeterminado da espécie humana e, ao mesmo tempo, satisfaça, no maior grau possível, as necessidades de cada indivíduo humano, proporcionando-lhe a oportunidade de viver uma vida digna.

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